“Quando
Vier a Primavera”
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
(Poemas Inconjuntos, heterónimo de Fernando Pessoa)
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
(Poemas Inconjuntos, heterónimo de Fernando Pessoa)
Reflexão:
O poema “Quando
vier a Primavera”, a meu ver, proporciona uma espécie de libertação no que diz
respeito à morte e à continuidade do mundo após a nossa morte.
Continuidade
esta poeticamente representada pela chegada da Primavera, estação que transmite
justamente a sensação do renascer, do despertar da natureza breve e
aparentemente adormecida.
No poema se constata que “as flores florirão da mesma
maneira E as árvores não serão menos verdes do que na Primavera passada”, e
ainda assim, esta é uma razão de profunda alegria, pois livra-se do fardo que é
o medo da morte, a partir da compreensão que a morte importância alguma tem,
pois a importância não está no fim, sim na vida, no que se vive e como se viu a
vida enquanto “vida”.
Ora, não há o que temer. “Porque tudo é real e
tudo está certo”.
Não no sentido de que o mundo estará no‘caminho do bem’, com
todos seguindo a risca tutoriais de como “fazer o certo”.
Mas sim porque o
mundo funciona com ou sem a nossa presença.
O que é, é, o que não é, não é,
quer queira ou não.
Portanto, a nossa ausência no máximo modificará alguma
pequena parte de um trajeto, mas o mundo jamais deixará de ser percorrido,
explorado... vivido!
Deixemos de lado então o fardo do medo, esqueçamos um
pouco o fim para viver o trajeto que temos até tal. Afinal, como diz o poeta,
“O
que for, quando for, é que será o que
é.”
Aline Santana
