domingo, 7 de dezembro de 2014

Quando vier a Primavera (Alberto Caeiro) - Reflexão

“Quando Vier a Primavera”

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é. 


(Poemas Inconjuntos, heterónimo de Fernando Pessoa)



Reflexão:



O poema “Quando vier a Primavera”, a meu ver, proporciona uma espécie de libertação no que diz respeito à morte e à continuidade do mundo após a nossa morte.
Continuidade esta poeticamente representada pela chegada da Primavera, estação que transmite justamente a sensação do renascer, do despertar da natureza breve e aparentemente adormecida. 
No poema se constata que “as flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes do que na Primavera passada”, e ainda assim, esta é uma razão de profunda alegria, pois livra-se do fardo que é o medo da morte, a partir da compreensão que a morte importância alguma tem, pois a importância não está no fim, sim na vida, no que se vive e como se viu a vida enquanto “vida”


Outro ponto que fortalece e ajuda nesta compreensão é a forma clara e direta em que diz “A realidade não precisa de mim”. Muitas vezes tememos a morte pelo medo do que ocorrerá a partir da nossa ausência irrevogável, como por exemplo, como será a continuidade da vida de pessoas que estavam fortemente interligadas a nossa. 
Ora, não há o que temer. “Porque tudo é real e tudo está certo”

Não no sentido de que o mundo estará no‘caminho do bem’, com todos seguindo a risca tutoriais de como “fazer o certo”
Mas sim porque o mundo funciona com ou sem a nossa presença.
O que é, é, o que não é, não é, quer queira ou não. 
Portanto, a nossa ausência no máximo modificará alguma pequena parte de um trajeto, mas o mundo jamais deixará de ser percorrido, explorado... vivido! 
Deixemos de lado então o fardo do medo, esqueçamos um pouco o fim para viver o trajeto que temos até tal. Afinal, como diz o poeta, 
“O que for, quando for, é que será o que é.”





Aline Santana

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